Post Destacado

Reflexão do Evangelho de segunda-feira 29 de agosto

DSC07636

Reflexão do Evangelho de segunda-feira 29 de agosto

Mc 6,17-29 – Morte de João Batista

A atividade de João Batista situa-se “no deserto”, lugar de oração e recolhimento, mas também, na linha de interpretação do Êxodo, lugar de conversão e de um novo início na caminhada para a vida eterna, fim destinado por Deus a todos os seres humanos.  Daí seu estilo de vida simples e austero, sem propriedade, vivendo do que o deserto lhe fornecia: gafanhotos e mel silvestre; vestindo pelos de camelos com um cinturão de couro rude. Com a audácia de um eremita, queimado pelo sol, João é o profeta, que largando tudo, vivia em função do futuro, anunciando a vinda do Messias.

O relato de sua morte é uma espécie de prelúdio à missão redentora de Jesus, à sua morte na cruz, como cumprimento dos desígnios de Deus. Muitos autores apontam semelhanças entre os dois: ambos foram profetas e ambos testemunharam a verdade, trazendo esperança e conforto aos espíritos ávidos de consolo e de paz, ao preço de sua própria vida.  A expectativa messiânica recorda o hino composto pelo Dêutero-Isaías, que descreve a passagem de um cortejo pascal por um deserto, que se transforma, diante da face do Senhor, num jardim florido. À frente, conduzindo-o, vem um arauto que prepara os que se encontram ao longo do caminho para receber aquele que avança. O arauto, muitos diziam que era João Batista, assassinado por ordem de Herodes; e “aquele que avança e tudo renova” era Jesus, que foi entregue a Pôncio Pilatos por seus adversários, e, após, levado à morte.

Às margens do rio Jordão, João Batista prega a penitência, anuncia profeticamente o juízo final e declara aos doutores da Lei que o fato de serem filhos de Abraão não era garantia de salvação: ele os convoca a produzir frutos dignos de conversão, de arrependimento, pois dizia: “Já o machado está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo”. Sua mensagem sobre o juízo compreende a oferta do batismo a todos, também a Herodes, que se colocava acima da lei. Núncio do Messias, com sua imperturbável convicção profética, ainda em liberdade, ele prefere afrontar o ódio do rei, em vez de negar os mandamentos de Deus apenas para adulá-lo. Na verdade, apesar de ter sido aconselhado por João a deixar o pecado do adultério, porque Herodes vivia em concubinato com a mulher do próprio irmão, o rei preferiu livrar-se do homem que o advertia de seu erro. Efetivamente, observa São Pedro Crisólogo: “A virtude torna-se indesejável para aqueles que são imorais; a integridade é motivo de sofrimento para os corruptos; a misericórdia é intolerável aos cruéis”.

Os últimos momentos da vida de João Batista são descritos por Orígenes como sendo os de um profeta que morreu com a certeza de dever cumprido: “João reprovava Herodes com a liberdade de um profeta. Levado à prisão por causa disso, não temia a morte, mas somente pensava no Messias que ele tinha anunciado. E não podendo ir ao seu encontro, envia dois de seus discípulos para interrogá-lo: ‘És tu aquele que deve vir? ’. Os discípulos retornam, relatando ao seu mestre o que o Salvador tinha dito. Então, João, armado para o combate, morre com segurança”. Como não podia deixar de ser, o profeta morria como viveu: dando testemunho da justiça e da liberdade do amor.

Dom Fernando Antônio Figueiredo,OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 13 de agosto

 

Mt 14,22-33 – Jesus caminha sobre as águas

 

DSC00104

 

 

Após despedir o povo e enviar os discípulos para a outra margem do lago, “Jesus subiu ao monte, a fim de orar”. Silêncio e solidão. Entre as nuvens, tocadas pelo vento forte, Ele divisa o pequeno barco dos discípulos, que buscavam em vão chegar a Cafarnaum.  “Na quarta vigília da noite”, nos primeiros albores do dia, Ele decide procurá-los. Soprava ainda um vento intenso, quando os Apóstolos avistam, em meio às águas encapeladas, caminhando sobre elas, um vulto que vinha ao encontro deles. Assustados, sentem um frio na espinha, o sangue gelar nas veias, e chegam a exclamar: “É um fantasma! ”.

Em meio ao fragor das ondas, que ameaçavam virar o pequeno barco, eles ouvem uma voz serena, tranquilizando-os “Sou eu. Não tenhais medo”. Custava-lhes crer que fosse o Mestre, que, aliás, faz menção de passar adiante, como o fez com os discípulos em Emaús. A esse propósito, comenta S. João Crisóstomo: “Jesus não acorre logo para salvar os discípulos, mas os instrui, através do temor, a afrontar os perigos e aflições”.

Impetuoso, Pedro o interpela: “Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas”. Ao ouvir a voz que lhe dizia: “Vem! ”, ele atira-se da borda do barco e põe-se a caminhar sobre as águas. Mas passados alguns instantes, sentindo-as sob seus pés, percebeu o que estava acontecendo e começa a afundar. É o que acontece com o cristão, quando, de improviso, bate à sua porta a adversidade, logo lhe falta coragem e ânimo. Então, a voz do seu coração se identifica com o apelo do Apóstolo Pedro: “Senhor, salva-me! ”, que expressa a profunda convicção de que Jesus é garantia da presença de Deus, em quem se pode ter confiança permanente. E para confirmar que sua missão é suscitar uma fé mais vigorosa em Deus, Ele estende a mão para ajudá-lo, dizendo: “Homem fraco na fé, por que duvidaste? ”. Desse modo simples e carinhoso, Jesus evita que o perigo da demasiada confiança em si mesmo atire Pedro à decepção e ao engano; por isso, erguendo-o, anima-o a crer nele e a se entregar tranquilamente em suas mãos.

Por fim, os demais apóstolos, no barco, como Pedro, sentem-se seguros e entendem que as palavras de Jesus: “Não temais”, tinham a força de um apelo para despertar confiança em sua Palavra. Assim como o povo de Israel se mostrara confiante e fiel à ação benevolente de Deus, conduzindo-o através do deserto, agora, Jesus, com seu indestrutível amor, os acompanha e lhes concede as asas da verdadeira liberdade, para não se deixarem abater interiormente diante das dificuldades e agitações da vida. Caso vacilem e venham a afundar, eles não hão de esmorecer e perder o ânimo, mas terão serenidade interior (apátheia) para enfrentar a adversidade, pois o Mestre é digno de toda confiança, e Ele estará sempre ao lado deles com a sua mão misericordiosa.

 

†Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 06 de agosto

 

Mt 17, 1-9 – Transfiguração do Senhor

 

DSC00053

 

       

No alto da montanha, enquanto Jesus rezava, Pedro, Tiago e João, que tinham permanecido um pouco afastados, adormeceram. Ao acordarem, pasmos, contemplam a mudança que se dera no Mestre: o rosto resplandecia como o sol e suas vestes eram de um branco ofuscante. Ele conversava com duas figuras, que os Apóstolos identificaram como sendo antigos profetas, vindos saudá-lo pelo cumprimento da Lei e das profecias. Por isso, querendo perpetuar aquele momento, eles exclamam: “Façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Eis que, de repente, envolvidos pela nuvem luminosa da presença de Deus, eles contemplam o esplendor da eterna glória e já participam, misteriosamente, da nova humanidade de Jesus, quando não mais haverá nem dia nem noite, mas luz perpétua, imensa paz e doce e saboroso amor, para além de todo medo.

No Messias humilhado e sofredor da Cruz, os Apóstolos serão tocados pelo Filho do Homem, que os conduzirá ao coração misericordioso do Pai; agora, a face transfigurada de Jesus reflete o fascínio irresistível daquele que cria ao seu redor uma atmosfera de paz, de amor e de alegria, levando Pedro a exclamar: “Rabi, é bom estarmos aqui”. Assim, na abertura do mistério, eles entreveem o Filho de Deus e se sentem arrebatados e completamente maravilhados, como que esquecidos dos muitos temores e das penosas preocupações, do emaranhado dos erros e dos árduos trabalhos, das debilidades e das dores. Daí dizer S. Gregório Palamas: “Se o corpo deve tomar parte, com a alma, dos bens inefáveis, no século futuro, é certo que também deles deve participar, na medida do possível, desde esta vida”. Pois, graças à Transfiguração, a criatura humana, ser mortal por natureza, reconhece que a morte corporal é passagem transfiguradora para a definitiva comunhão com Deus.

 Por conseguinte, lá, no monte Tabor, engalanado de luz, Jesus prenuncia o início da verdadeira nova criação de Deus, que desponta e madura dentro da vida do homem mortal, resultante de sua ação histórica: trata-se do corpo transfigurado, um futuro realizado pelo homem interior em sua inserção na vida de Deus. Essa compreensão é proclamada pelo Prefácio da missa dos mortos: “Ó Pai, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada, e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

 

Reflexão do Evangelho – Domingo, 30 de julho

 

Mt 13, 44-46 – As parábolas do tesouro e da pérola

 

DSC00746

 

 

Jesus se exprimia num estilo bastante popular, contando parábolas, que eram conhecidas desde muito em Israel. Traçava quadros tirados da vida cotidiana e fazia das parábolas um meio direto e concreto de transmissão dos seus ensinamentos. Deixava entrever, às pessoas simples da Galileia, que mesmo as realidades frágeis e precárias desta terra adquiriam um novo sentido à luz de sua pregação. Falava de perdão e os corações se sentiam reconciliados, falava de paz e os ódios serenavam, falava da bondade e da misericórdia do Pai e todos se sentiam renovados e confiantes no futuro. Quando perguntado por que utilizava parábolas, Ele responde: “A vós foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a esses não é dado. Eis porque lhes falo em parábolas para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam”. Desejava tocar todo o ser da pessoa, não só o intelecto, pois em torno dele, o mundo parecia, por vezes, uma cidadela de arrogância, de prepotências; com ternura, Ele proclamava a liberdade e a fraternidade humana.

Daí o fato de Ele comparar a bem-aventurança da Terra Prometida do Reino de Deus, dom gratuito, fonte de alegria e de júbilo, a um tesouro enterrado, descoberto de modo fortuito. Mas as portas do Reino só se abrem para os discípulos se eles aderirem e se empenharem, como aquele homem, que adquiriu o campo, ou como aquele negociante, que, “ao achar uma pérola de grande valor, vai e vende tudo o que possui e a compra”. A pedra, reconhecida pelo seu valor, beleza e perfeição, é comparada ao inestimável dom do Reino, digno do sacrifício de todos os demais bens.

O Reino de Deus é vida de comunhão com o Pai; é manifestação de sua misericórdia, anúncio de um amor salvador, que recria o pecador, fazendo-o ser novo. O Reino representa a plena realização do nosso ardente desejo de paz, de felicidade e de liberdade interior, e provoca a transformação de nosso ser e de nossas relações com os outros e com o mundo. Ao ritmo destas mudanças, as portas do Reino se abrem e, então, sob a luz do Evangelho, voltamos nosso olhar para as alegrias terrenas e reconhecemos que Deus, com suas ponderosas e amorosas ações, não produziu apenas nós, seres humanos, mas produziu uma ampla e bela comunidade, que comparte a vida conosco, “formando, no dizer do Papa Francisco, uma família universal”.

Uma das expressões mais belas desse amor que nos une é a amizade, totalmente desinteressada, que nos faz sentir o carinho do Pai bondoso e misericordioso, pois cada um de nós, como bem compreendeu S. Francisco de Assis, coloca o outro antes de si mesmo, comunicando amor, onde há ódio, perdão, onde há ofensa, alegria, onde há tristeza, luz, onde há trevas. Aí está o segredo da mensagem de Jesus: viver o sonho do Reino de um amor que não tem fim, amor que vai até o extremo de dar a vida por todos.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 23 de julho

 

Mt 13,24-30 – A parábola do joio, da semente boa e má

 

DSC00595

 

 

Através da parábola do joio, Jesus indica a necessidade de um agir correto do ponto de vista social e cultural, o que nos faz lembrar o anúncio dos profetas, que traçavam a imagem “utópica” de um mundo futuro de justiça e de paz. Na realidade, o Mestre conta a parábola de “um homem, que semeou boa semente no seu campo e quer ele durma, quer esteja acordado, de noite e de dia, a semente germina e cresce”. É a semente do bem, expressão da bondade divina, presente em todo ser humano, pois tudo quanto Deus criou é bom. A bondade não só define seu ser, mas também a possibilidade de ser bom em suas ações. Fato que ele ama e ao mesmo tempo teme, pois é um compromisso de significado profundamente existencial-religioso: corresponder ou não ao bem, sintonizar-se com Deus ou dele se distanciar. A partir daí o pecado não se reduz a uma transgressão moral; transportado à esfera do desapego do eu e da fé em Deus, ele se torna uma maneira de ser, uma “enfermidade” provocada pelo inimigo, o estrangeiro, o “adversário” do Povo de Deus, que busca impedi-lo de reconhecer na história a salvação comunicada por Cristo.

À primeira vista, parece não ser fácil sustentar a ideia de uma convivência pacífica entre ambos. No entanto, situando a questão na órbita eclesial-espiritual, S. Agostinho apresenta a Igreja como lugar na qual convivem os santos e os pecadores, o bem e o mal, não como realidades estáticas, mas dinâmicas, porquanto ambos são convocados a crescerem e a se moverem, graças à ação misericordiosa de um Deus, insuperável em longanimidade. Nesse sentido, o mal ou o pecado não é, simplesmente, a transgressão de uma lei, uma negação moral, mas se situa na esfera religiosa da não-fé, face negativa da fé de Abraão. Mais do que uma negação, o pecado é uma maneira de ser, é a possibilidade de o homem se colocar em desarmonia com a integridade de sua pessoa; é uma “fraqueza” na tentativa de ser sempre mais si mesmo.

Por conseguinte, a parábola fala da misericórdia divina, que vem ao encontro do homem, no desejo de levá-lo à sua realização integral. Cabe ao homem dar espaço em seu coração para a boa semente e não deixar crescer nele o joio, que o afastaria do ato benevolente de Deus e da consciência de que ele não é nada para si mesmo enquanto não for algo para outrem. De fato, representado pelo joio, o mal pode infectar seu coração, gerando desconfiança e hostilidade, para afastá-lo de Deus e destruir a reciprocidade e mesmo a comunhão fraterna. Embora Deus respeite a decisão final do homem, em suas opções concretas e temporais, Ele está pronto a lhe oferecer novos caminhos, pois, diz Orígenes: “Se o ser de Deus é inesgotável, nele, o ser humano estará sempre descobrindo novas possibilidades de união no amor”.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 16 de julho

 

Mt 13,1-9 – Parábola do semeador

 

DSC00510

 

 

Aos olhos de Jesus, estende-se uma larga e fértil planície, cheia de luz e de vida, terra pródiga, que acolhe a semente lançada por um zeloso semeador. Não longe, via-se o mar. “Saindo de casa, segundo o evangelista, Ele sentou-se” para ensinar a multidão que o ouvia atentamente. Mais tarde, muitos reconhecerão nesta passagem uma alusão ao fato de Jesus ter saído de junto de Deus para vir ao mundo anunciar a boa nova da misericórdia e do amor.

Através de pequenas histórias, as parábolas, extraídas da natureza e da vida cotidiana dos ouvintes, Jesus transmite a sua doutrina. Naquele momento, Ele aproveita a cena de um semeador, em seu afã de lançar em terra as sementes, que terão destinos diversos segundo a qualidade de cada terreno. Andando passo a passo, num trabalho esperançoso, embora cansativo, o semeador deixa cair “uma parte das sementes à beira do caminho”, terreno “pisado pelos pés de todos”; elas não chegam a penetrá-lo, então os pássaros as levam e delas desfrutam. Outra parte, “cai em lugares pedregosos”, onde há pouca terra, elas germinam, mas não podem ganhar raízes, e logo secam. S. Cirilo de Alexandria as compara “a uma fé superficial, evanescente, que logo sucumbe à tribulação ou à perseguição”. Outras ficam sufocadas entre os espinhos, que representam, segundo S. Jerônimo, “os corações dos que se tornam escravos dos prazeres e dos cuidados deste mundo”.

Finalmente, há os grãos que caíram em terra boa e deram frutos, superando as expectativas, pois o rendimento é vertiginoso, sinal do triunfo final do Reino: trinta por um, sessenta ou mesmo cem por um. Se o campo, onde é lançada a semente, é figura da sociedade humana, que se reveste de múltiplas formas, os frutos dependem de quem “ouve a Palavra e a realiza”. Aquele que acolhe a Palavra vê o mundo sob uma perspectiva nova, como reflexo do Evangelho da paz, do perdão e da misericórdia, mas quem se fecha à Palavra não reconhecerá a mensagem de Jesus como oferta de salvação e irá perdendo a integridade interior, deteriorando-se seus valores e virtudes.

Não percamos de vista o fato de que é livremente que o ser humano descobre a sua verdade, e é também livremente que ele constrói o seu destino: em sua vida não existe nenhuma possível repetição, pois seus atos são sempre únicos. Assim, no impulso do amor, ele poderá alcançar sua verdade íntima e sua vontade terá sempre de novo a possibilidade de amar o bem e de construir um mundo mais justo, solidário e verdadeiro.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 09 de julho

 

Mt 11,25-30 – Evangelho revelado aos simples

 

DSC00387

 

 

Ao redor de Jesus, os discípulos formavam um grupo itinerante, que passava de vilarejo em vilarejo, escalando os declives da estrada, muitas vezes sob um sol causticante, mas sustentados pelo olhar do Mestre e pela confiança em Deus que Ele lhes transmitia a cada instante.  Ao dirigirem sua prece como filhos que abrem ao Pai seu coração, a insegurança e as preocupações se esvaem, pois Jesus não só chamava a si as criancinhas, mas lhes dizia: “Haverá alguém dentre vós que, se o filho lhe pedir um pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? ” Confiando na benevolência de Deus, à lembrança da atitude de Jesus em suas orações, eles o chamarão de Pai.

Na pessoa de Jesus, Deus se tornou próximo dos homens. “Tende fé em Deus! ”, diz-lhes Jesus, ensinando-lhes a oração do Pai-Nosso e convidando-os a confessar suas dores, incertezas e tudo aquilo que os ocupava. A atitude do Mestre: confiante, simples e espontânea ficou, sem dúvida, gravada profundamente na memória dos discípulos, pois ela se tornou logo a prece central da comunidade, que devia recitá-la três vezes ao dia, segundo a Didaqué, pequeno catecismo escrito entre os anos 60 e 80.

 Ao declarar: “Ninguém conhece quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”, Jesus está incentivando os discípulos a entrarem no tabernáculo do próprio coração, para receberem o conhecimento do Pai, concedido por Ele, não de modo arbitrário, mas àqueles que se colocam em sua escola e, sem nenhuma arrogância, abrem o coração para o Pai e imploram o seu perdão. O que importa para Jesus não é o passado pecaminoso de alguém, mas é o hoje da conversão, a possibilidade de um futuro.

Ao ouvirmos e acolhermos essas palavras, somos introduzidos na intimidade da vida de Jesus com o Pai, pois, no dizer de São Gregório de Nazianzo, “o Senhor se faz pobre; suporta a pobreza de minha carne para que eu alcance os tesouros de sua divindade. Ele tudo tem, de tudo se despoja; por um breve tempo se despoja mesmo de sua glória para que eu possa participar de sua plenitude”. Na realidade, são coisas simples, todas elas demonstrações da riqueza, que o amor transbordante de Jesus deseja transmitir a todo ser humano: fazer parte da intimidade da vida do Pai, que se chama misericórdia.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Reflexão do Evangelho – Domingo, 02 de julho

 

Mt 16,13-19 – Confissão do Apóstolo Pedro

 

DSC00238

 

 

Na bela cidade de Cesareia, reedificada pelo tetrarca Felipe, no ano 3 a.C., com o desejo de reunir toda a humanidade num único povo, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou? ”. De acordo com a opinião popular, que o identificava com um dos profetas do passado, “responderam-lhe: uns afirmam que és João Batista, outros que és Elias, outros, ainda, que és Jeremias ou um dos profetas”. E vós, o que pensais? Quem sou eu, na vossa opinião? “Para além do que se via nele, diz S. Hilário, os Apóstolos pressentem algo mais”. Mas quem responde, em nome de todos, é Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”.

Momento solene e revelador. Jesus o chama de “bem-aventurado”, pois Pedro vê o que a outros escapa. Feliz, porque “não foram o sangue nem a carne que te revelaram isto, mas sim o meu Pai que está nos céus”. O paralelismo com a epístola aos Gálatas (1,15-16) assinala quão importante é a distinção, que os teólogos, como H. de Lubac, denominam “a natureza” e o “sobrenatural”. Distinção fundamental para a Igreja primitiva, que tem a firme convicção de que a vida cristã nasceu da mensagem e da atuação de Jesus, presença no mundo da infinita misericórdia de Deus.

E agora tens uma tarefa importante para realizar, pois “tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. O nome dado a Simão designa ser ele a pedra, solidificada pela sua força, sobre a qual Ele construirá sua Igreja, que, superando a “qahal”, assembleia dos fiéis do Antigo Testamento, passará a significar a reunião de todas as gentes no único povo de Deus, que não se dobrará jamais aos ataques das forças inimigas. E Eu te “darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”. Palavras que evocam a ideia rabínica de excluir alguém da comunidade ou nela admitir.

Escreve Orígenes: “É tocante pensar que Pedro tenha dito ao Salvador: “Tu és o Cristo”; melhor ainda que o tenha reconhecido “Filho do Deus vivo”. Se nós as dizemos, é porque também elas nos foram reveladas pelo Pai, e seremos proclamados “bem-aventurados” (Sobre Mt XII, PG 13,995).

No dia de hoje, recordamos o Papa Francisco, Bispo da Igreja de Roma, no dizer de S. Irineu, “Igreja dos gloriosos mártires Pedro e Paulo”. Como sucessor do Apóstolo Pedro, ele é sinal de unidade na caridade e, como o Apóstolo Paulo, enviado para evangelizar todas as culturas e raças, ele é presença de paz e de justiça, da boa nova para todos.

 

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM